Estimulação Cerebral
Profunda na Doença
de Parkinson

O que é a cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda?

A Estimulação Cerebral Profunda é uma cirurgia realizada para melhorar os sintomas da doença de Parkinson, Distonias, alguns tipos de Tremores (em especial o Tremor Essencial), Gilles de la Tourette, entre outras doenças neuropsiquiátricas. Ela consiste na colocação de eletrodos em uma pequena região do cérebro afetada por uma determinada doença.

Na doença de Parkinson, no geral, o eletrodo é colocado no núcleo subtalâmico (bilateralmente), uma pequena estrutura localizada na região central do cérebro. Esse núcleo é responsável por grande parte da nossa função motora, em especial a velocidade e a precisão dos movimentos, e os movimentos automáticos como andar, falar e escrever.

O núcleo subtalâmico é influenciado pela dopamina. Na doença de Parkinson, há uma perda progressiva da produção de dopamina, de tal maneira que esse núcleo passa a funcionar com dificuldade, o que leva ao surgimento dos vários sintomas clássicos da doença: lentidão dos movimentos, dificuldade para andar e perda do equilíbrio, voz baixa e dificuldade para escrever, além de tremor (geralmente nas mãos), quando o braço está em repouso.

Desta maneira, a estimulação do núcleo subtalâmico através de pequenos impulsos elétricos visa reestabelecer o funcionamento adequado dessa pequena região cerebral, aliviando assim os sintomas.

Do que é composto o sistema de Estimulação Cerebral Profunda?

O sistema de Estimulação Cerebral Profunda é composto por 3 partes principais:

– o eletrodo de estimulação, que fica no interior do cérebro e é responsável por estimular o alvo determinado (núcleo subtalâmico, no caso da doença de Parkinson); Representado pelos números 1 e 2 na figura abaixo.

– o cabo de conexão, que conecta o neuroestimulador ao eletrodo de estimulação, e se localiza embaixo da pele. Representado pelo número 3 na figura abaixo.

– o neuroestimulador, que gera a energia para todo o sistema, funcionando como um marcapasso. Ele fica embaixo da pele, geralmente na região torácica. Representado pelo número 4 na figura abaixo.

A técnica de Estimulação Cerebral Profunda existe há mais de 30 anos para o tratamento da doença de Parkinson, alguns tipos de tremores e distonia.
Hoje em dia, mais de 200.000 pacientes já realizaram a cirurgia ao redor do mundo.

No geral, a doença de Parkinson pode se manifestar de diversas formas, sendo os sintomas e a evolução muito particular de cada paciente. Algumas formas e sintomas respondem bem à Estimulação Cerebral Profunda, outras nem tanto.

Assim, a Estimulação Cerebral Profunda destina-se aos seguintes casos:
1. Pacientes que apresentam muitos períodos em “OFF” ao longo do dia, isto é, períodos em que estão rígidos, com importante limitação e lentidão dos movimentos, o que dificulta nas atividades do dia-a-dia.
2. Pacientes com discinesias importantes, que são movimentos involuntários que aparecem geralmente no pico do efeito da levodopa, e que dificultam e incomodam a qualidade de vida.
3. Pacientes com tremor importante, que se mantém mesmo em uso de medicações adequadas, e que compromete as atividades diárias.

Importante lembrar que o tratamento principal da doença de Parkinson ainda são as medicações, e a cirurgia visa, em casos específicos, melhorar os sintomas, mas sempre em conjunto das medicações.

Existem critérios específicos para se indicar a cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda, e esses devem ser discutidos caso a caso com o neurologista e com o neurocirurgião.

Além das indicações discutidas acima, o paciente deve apresentar uma boa resposta no Teste de Levodopa. O teste é fundamental pois sabemos que uma boa resposta à levodopa está diretamente associada a uma boa resposta à cirurgia.

Durante o Teste de Levodopa, o paciente é avaliado em duas situações:
i) sem os efeitos das medicações parkinsonianas nas últimas 12 horas, ou seja, em “OFF”
ii) sob o efeito da levodopa – ele recebe uma dose dispersível da levodopa – ou seja, em “ON”.

Finalmente, além do Teste de Levodopa, todos os pacientes devem realizar uma avaliação neuropsicológica antes da cirurgia. Pacientes que apresentam quadros demências ou quadros psiquiátricos instáveis não devem ser encaminhados à cirurgia.

Além de apresentar as indicações clássicas para cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda, todos os pacientes devem realizar antes da cirurgia o Teste de Levodopa e o Teste Neuropsicológico.

A Estimulação Cerebral Profunda tem como principal objetivo melhorar a qualidade de vida do paciente. No geral, há melhora dos 3 sintomas clássicos da doença: o tremor de repouso, a rigidez, e a lentidão dos movimentos. A porcentagem de melhora varia caso a caso, e na maioria dos estudos gira em torno de 50 a 70%.

Além dos 3 sintomas clássicos da doença, a cirurgia também apresenta resultados positivos sobre as discinesias e sobre as flutuações/ oscilações motoras ao longo do dia.

Os efeitos benéficos da cirurgia duram vários anos. Entretanto, devido ao caráter evolutivo da doença de Parkinson, a eficácia pode reduzir com a progressão da doença.

Como regra, a cirurgia melhora os sintomas que a levodopa também melhora, porém de forma mais constante e previsível. Sendo assim, alguns sintomas como desequilíbrio, quedas e alterações da fala comumente não melhoram com a cirurgia, e podem inclusive piorar. Novamente, a discussão caso a caso quando o paciente tem esses sintomas deve ser feita com o médico neurologista.

Outros sintomas presentes na doença de Parkinson, como depressão, ansiedade, dor e alterações do sono podem eventualmente melhorar, mas nunca devem ser o motivo principal da indicação cirúrgica.

A Estimulação Cerebral Profunda tem como objetivo melhorar o tremor, a rigidez, a lentidão dos movimentos, as discinesias e as flutuações motoras ao longo do dia. Quando as principais queixas do paciente são quedas, desequilíbrio, dificuldade na fala e esquecimentos, a cirurgia não deve ser considerada.

O paciente em média permanece internado por cerca de 3 a 4 dias. No dia da cirurgia, é realizado um exame de tomografia do crânio após ser colocado o aparelho de estereotaxia, que é um halo ao redor da cabeça que ajudará o neurocirurgião a manter a cabeça estável durante todo o procedimento.

No centro cirúrgico é cortada parte do cabelo e é feita uma limpeza detalhada do local da cirurgia, para evitar infecção. A cirurgia em si – colocação dos eletrodos – é realizada com o paciente acordado. Esse processo é fundamental, pois é necessário que o médico avalie os sintomas parkinsonianos durante a cirurgia, para garantir a colocação adequada dos eletrodos. Durante a introdução do eletrodo, o paciente é periodicamente orientado a abrir e fechar a mão, a repetir algumas frases, dentre outros testes simples. Conforme discutido, são colocados 2 eletrodos, um de cada lado do cérebro. O tempo total desse processo é em torno de 3 horas.

Vale lembrar, que a incisão na pele é feita com anestesia local, e a introdução dos eletrodos não causa dor ao paciente.

Após a colocação dos eletrodos, sob anestesia geral, o neuroestimulador (semelhante a um marcapasso cardíaco) é implantado embaixo da pele logo abaixo da clavicula, em um dos lados da região peitoral, sendo necessária uma incisão de cerca de 7 cm. As conexões entre o gerador (marcapasso) e os eletródios cerebrais são inseridas por baixo da pele com um trajeto por trás da orelha, parte lateral do pescoço, sem prejuízos estéticos.

Após a cirurgia, o paciente permanece cerca de 2 dias internado para observação e administração de antibióticos, recebendo alta a seguir.

Durante a introdução dos eletrodos o paciente permanece acordado. Isso permite que os sintomas parkinsonianos sejam melhores avaliados, o que auxilia na colocação precisa do eletrodo.

As primeiras cirurgias de Estimulação Cerebral Profunda começaram em 1987, e, nesses anos vários, avanços cirúrgicos foram feitos para melhorar a sua eficácia e reduzir os seus riscos. Mesmo assim, em alguns casos, podem ocorrer complicações, e o paciente e os familiares devem estar cientes deles.

Efeitos colaterais e riscos potenciais

– Há a possibilidade (cerca de 5%) de infecção de couro cabeludo ou pele nos locais de manipulação cirúrgica e das membranas de envolvem o cérebro (meningites não contagiosas – risco menor que 1%), que devem ser tratadas com antibiótico e podem prolongar a internação.

– Possibilidade de complicação durante a anestesia local ou geral relacionadas a alergias não conhecidas ou reações imprevisíveis aos anestésicos de uso rotineiro.

– Disfunções neurológicas temporárias não relacionadas à hemorragia, como perda de força em um lado do corpo, alterações da fala, confusão mental e desorientação no tempo e espaço no período após a cirurgia podem ocorrer em uma pequena parcela dos casos.

– lnchaço na face ou na fronte relacionados à fixação do aparelho estereotáctico ocorrem em 90% dos casos, e são transitórios.

– Riscos de hemorragia cerebral (0,9 a 2%) com possível prejuízo parcial ou total de funções cerebrais como movimentação do corpo, fala e movimento dos olhos.

– O risco de morte relacionados a procedimentos similares é de 0,5% das operações.

– Desconforto temporário relacionado à fixação dos pinos (sob anestesia local) do aparelho de localização de regiões-alvo do cérebro (aparelho estereotáctico) à cabeça.

A cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda não é isenta de riscos. Portanto, em cada caso deve ser discutido detalhadamente os riscos e benefícios do procedimento entre o paciente, a família, e a equipe médica.

Cerca de 1 a 2 semanas após a cirurgia, o médico neurologista inicia a estimulação através de um programador que é colocado sobre o neuroestimulador do paciente, o que possibilita a regulagem adequada da energia liberada no núcleo subtalâmico. Esse processo, em geral, é lento, e requer algumas visitas dos pacientes ao neurologista, pois assim como a maioria das medicações, a estimulação deve ser ajustada aos poucos.

Em cada visita, são feitos testes clínicos e ajuste da estimulação, com o objetivo de aliviar os sintomas. Ao mesmo tempo, são feitos ajustes nas medicações. Embora geralmente haja redução das medicações, vale ressaltar que os pacientes mantêm o uso dos remédios após a cirurgia.

A bateria do neuroestimulador em média tem duração de 3 a 5 anos, sendo necessário a troca após esse período. Apenas o neuroestimulador é trocado, não sendo alterado o eletrodo de estimulação. Alguns aparelhos são recarregáveis, e nesses casos o paciente recebe orientações de como recarregar a sua bateria em sua casa.

Procedimentos que podem ser feitos após a cirurgia:

– Uso de aparelhos elétricos (micro-ondas, celular, computador)
– Cortar o cabelo (após cicatrização)
– Dirigir
– Utilizar transporte público
– Esportes (natação, fisioterapia, caminhada)
– Exames médicos (ecografia, radiografia, mamografia, tomografia)

Procedimentos que podem ser feitos após a cirurgia com precaução:

– Manipular aparelhos com imãs
– Passar em portas magnéticas de lojas
– Esportes com contato – usar proteção
– Andar de bicicleta – usar capacete
– Ressonância (apenas com orientação da equipe)

Procedimentos que não podem ser feitos após a cirurgia:

– Passar em portas magnéticas em aeroportos e bancos
– Soldagem
– Bronzeamento artificial
– Esportes com muito contato
– Mergulho profundo
– Bisturi elétrico monopolar próximo a região do neuroestimulador

Após a cirurgia o paciente deve fazer visitas periódicas ao neurologista, principalmente nos primeiros 3 meses. Embora, geralmente, ocorra redução parcial das medicações após a cirurgia, o tratamento medicamentoso sempre continuará a ser feito e ajustado.

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